Cirurgia Geral
Leitura: ~9 min

Hérnias da parede abdominal:
o que você não conhece

Umbilical, epigástrica, incisional, de Spiegel, lombares, obturadora e os tipos especiais — tudo que vai além das hérnias inguinal e femoral.

Por CT dos Acadêmicos · Cirurgia Geral

Inguinal e femoral você já conhece. Mas a parede abdominal é um mapa cheio de pontos fracos anatômicos que geram hérnias com apresentações, populações e peculiaridades completamente distintas. Algumas são raras, algumas causam sinais clínicos que valem a pena decorar, e algumas têm detalhes cirúrgicos específicos que aparecem em prova. Este artigo cobre as que costumam ficar de fora.

Mapa anatômico das hérnias da parede abdominal
Localização anatômica das principais hérnias: epigástrica (linha alba, acima do umbigo), umbilical, incisional, de Spiegel (borda lateral do reto abdominal, abaixo da linha arqueada de Douglas), lombares de Grynfelt e Petit, e obturadora (pelve). Ilustração: CT dos Acadêmicos
HÉRNIA UMBILICAL

Umbilical — criança versus adulto

Dois mecanismos diferentes, duas abordagens diferentes

A hérnia umbilical tem uma particularidade que vale a pena fixar: o mecanismo é completamente diferente dependendo da faixa etária, e isso muda a conduta.

Criança
Defeito Congênito
Fechamento espontâneo esperado até os 4–6 anos. Conduta conservadora na maioria dos casos.

Indicações cirúrgicas: hérnia associada à hérnia inguinal, defeito maior que 2 cm, derivação ventrículo-peritoneal, ou ausência de fechamento após 4–6 anos.
Adulto
Defeito Adquirido
Gestação, ascite e obesidade são as causas mais comuns. Mais frequente em mulheres.

Indicações cirúrgicas: dor, ascite volumosa, encarceramento ou defeito de grande dimensão.
💡 Atenção

No paciente com cirrose e ascite volumosa, a hérnia umbilical pode sofrer ruptura espontânea — situação de urgência com alta mortalidade. O controle da ascite faz parte do manejo pré-operatório.

HÉRNIA EPIGÁSTRICA

Epigástrica — pequena, dolorosa e enganosa

Linha alba entre a cicatriz umbilical e o apêndice xifóide

A hérnia epigástrica ocorre em defeitos da linha alba, no segmento entre o umbigo e o apêndice xifóide. O conteúdo herniado é quase sempre epiplon — e não alças intestinais.

📌 Ponto-chave

A hérnia epigástrica é geralmente dolorosa independente do tamanho. O epiplon herniado fica encarcerado com frequência mesmo em defeitos pequenos, gerando dor desproporcional ao que se palpa. Não subestime a queixa álgica pelo tamanho do defeito ao exame físico.

HÉRNIA INCISIONAL

Incisional — complicação de incisão prévia

Fatores de risco, tamanho do defeito e posicionamento de tela

A hérnia incisional surge em sítios de incisão cirúrgica prévia. O enfraquecimento da parede pode resultar de múltiplos fatores:

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Fatores técnicos e locais

Técnica de fechamento inadequada, infecção de sítio cirúrgico, hematoma e seroma no pós-operatório.

🧬
Fatores do paciente

Desnutrição, idade avançada, uso crônico de corticosteroides, obesidade e pressão intra-abdominal elevada (tosse crônica, ascite, esforço evacuatório).

Tamanho do defeito e via de acesso

Até 4 cm Abordagem aberta ou laparoscópica — ambas com resultados equivalentes.
4 a 10 cm Preferência pela via laparoscópica (ou aberta conforme experiência do serviço).
Acima de 10 cm Separação de componentes — técnica que mobiliza planos musculares para permitir o fechamento sem tensão de defeitos extensos.

Posicionamento da tela — onde ela vai?

A posição da tela em relação às camadas da parede abdominal é um tema recorrente em provas e tem impacto direto nas complicações pós-operatórias:

Posicionamento das telas na correção de hérnia incisional: Onlay, Sublay, Underlay e Inlay
Posicionamento de telas: a posição determina o risco de infecção, a complexidade técnica e a indicação de acesso. O Sublay (Rives-Stoppa) é considerado o padrão de referência para defeitos de tamanho intermediário. Ilustração: CT dos Acadêmicos
Onlay
Acima da aponeurose
Técnica mais simples. Menor complexidade dissectiva, porém com maior risco de infecção de sítio cirúrgico pela proximidade com o subcutâneo.
Sublay — Rives-Stoppa
Abaixo do m. reto, acima do peritônio
Técnica de referência para defeitos médios. Boa integração tecidual e menor exposição à contaminação. Requer dissecção do espaço retromuscular.
Underlay — IPOM
Abaixo do peritônio
Técnica videolaparoscópica. A tela fica intraperitoneal — requer material com face antiadesiva para reduzir o risco de aderências viscerais.
Inlay
Entre as aponeuroses, no defeito
Tela posicionada no próprio orifício herniário. Reservada para defeitos grandes em que o fechamento primário não é possível. Maior risco de recidiva.
HÉRNIA DE SPIEGEL

Hérnia de Spiegel — interparietal e invisível

Borda lateral do reto abdominal · linha semilunar · diagnóstico por imagem

A hérnia de Spiegel ocorre na junção entre a borda lateral do músculo reto abdominal e a linha semilunar (de Spiegel) — uma linha imaginária que demarca o limite lateral da bainha do reto. Sua localização predominante é abaixo da linha arqueada de Douglas, onde existe apenas um folheto aponeurótico, criando um ponto de maior fragilidade.

⚠ Diagnóstico difícil

Por ser uma hérnia interparietal — que se desenvolve entre as camadas da parede abdominal sem protruir sob a pele — o exame físico frequentemente é inconclusivo. O diagnóstico exige tomografia computadorizada de abdome. Sempre tratar quando diagnosticada: risco elevado de encarceramento.

HÉRNIAS LOMBARES

Grynfelt e Petit — os triângulos do dorso

Dois triângulos anatômicos distintos, dois epônimos para não confundir

Grynfelt — Triângulo Lombar Superior
Mais comum das hérnias lombares
Limites: borda inferior da 12ª costela (superior) · músculo paraespinhal (medial) · músculo oblíquo interno (lateral e anterior).
Petit — Triângulo Lombar Inferior
Menos frequente
Limites: borda superior da crista ilíaca (inferior) · músculo oblíquo externo (lateral) · músculo grande dorsal (medial).
HÉRNIA OBTURADORA

Hérnia Obturadora — o sinal da coxa

Canal obturatório · compressão do feixe vasculonervoso · Howship-Romberg

A hérnia obturadora passa pelo canal obturatório, formado pela membrana obturadora em conjunto com o osso púbico e o ísquio. Quando ocorre enfraquecimento dessa membrana, o conteúdo herniado pode comprimir o feixe vasculonervoso obturatório.

👩
Perfil típico

Sexo feminino, idade avançada, multiparidade, perda de peso acentuada. A pelve mais larga e a redução do coxim adiposo periobturatório favorecem o desenvolvimento.

🦵
Sinal de Howship-Romberg

Dor na face anteromedial da coxa, referida ao longo do trajeto do nervo obturatório, que é aliviada pela flexão da coxa (descomprime o nervo). Patognomônico de hérnia obturadora.


TIPOS ESPECIAIS

Hérnias com conteúdo ou mecanismo incomum

Epônimos e apresentações que aparecem em prova

Richter
Pinçamento da borda antimesentérica
Apenas parte da circunferência do intestino está herniada — a borda antimesentérica. Gera isquemia sem obstrução intestinal. Mais comum na hérnia femoral. Diagnóstico difícil.
Por Deslizamento
Parte do saco herniário é a víscera
O conteúdo (cólon ou bexiga) forma parte da parede do saco herniário. Risco de lesão inadvertida durante a dissecção. Requer atenção redobrada na correção.
Littré
Divertículo de Meckel
Presença de divertículo de Meckel como conteúdo herniário. Raridade — mas associação cobrada em provas.
Amyand
Apêndice cecal
Apêndice vermiforme no interior do saco herniário — classicamente em hérnia inguinal. Pode apresentar apendicite no interior do saco.
Garangeot
Apêndice na hérnia femoral
Variante da Amyand, porém o apêndice está no saco de hérnia femoral. Diagnóstico frequentemente intraoperatório.
Pantalona
Hérnia mista
Combinação de hérnia inguinal direta e indireta no mesmo lado, em "alças" que lembram calças. O saco herniário envolve os vasos epigástricos inferiores.

Conhecer as hérnias incomuns é reconhecer que a parede abdominal tem muito mais pontos vulneráveis do que a inguinal e a femoral — e que um sinal clínico específico, como o de Howship-Romberg, pode ser o único caminho para o diagnóstico.

Referências

  1. Townsend CM Jr et al. Sabiston Textbook of Surgery, 21st ed. Elsevier, 2022.
  2. Brunicardi FC et al. Schwartz's Principles of Surgery, 11th ed. McGraw-Hill, 2019.
  3. Muysoms FE et al. Classification of primary and incisional abdominal wall hernias. Hernia. 2009;13(4):407-414.
  4. Henriksen NA et al. Clinical review of incisional hernia repair. Scand J Surg. 2020;109(1):3-10.
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