Confundir colelitíase, colecistite e colangite é um erro clínico clássico — e acontece até com médico formado há anos. A dor em hipocôndrio direito aparece nos três, o paciente chega no PS às 3h da manhã e a apresentação clínica pode se sobrepor. Vale organizar o raciocínio de vez.
A colelitíase é a presença de cálculos na vesícula biliar sem inflamação ativa. A colecistite aguda ocorre quando um cálculo se impacta no infundíbulo ou no ducto cístico, desencadeando processo inflamatório — e eventualmente infeccioso — da parede vesicular. A colangite aguda é uma entidade distinta: trata-se de infecção bacteriana das vias biliares, com fisiopatologia centrada na obstrução do colédoco. São três cenários com fisiologias distintas, urgências distintas e condutas distintas.
- Cálculo na vesícula
- Sem inflamação ativa
- Maioria assintomática
- Dor <6h, afebril
- Vesícula inflamada
- Cálculo impactado
- Dor >6h + febre
- Murphy positivo
- Via biliar infectada
- Obstrução + infecção
- Tríade de Charcot
- Icterícia presente
Colelitíase — o cálculo que a maioria não sente
Epidemiologia, semiologia da cólica biliar e indicações cirúrgicas
A grande maioria dos portadores de colelitíase permanece assintomática. É comum o achado incidental durante laparotomia ou laparoscopia por outra indicação — uma colecistectomia por via laparoscópica para apendicite, por exemplo, e a vesícula está repleta de cálculos sem qualquer queixa prévia referida. Estima-se que apenas 20 a 30% dos portadores de cálculos biliares desenvolvem sintomas ao longo da vida.
A Cólica Biliar — decifrando a dor
Dos sintomáticos, a manifestação mais comum é a cólica biliar, que ocorre em torno de 15% dos casos. E ela tem características bem específicas que o paciente vai te descrever quase sempre da mesma forma:
Localização: hipocôndrio direito ou epigástrio. Pode irradiar para o ombro direito por irritação diafragmática — às vezes o paciente jura que é dor no ombro e pronto.
Gatilho: quase sempre associada a uma refeição gordurosa. O paciente comeu uma feijoada, um churrasco — e algumas horas depois a dor aparece. O mecanismo: a CCK liberada pelo duodeno estimula a contração da vesícula, e se tem cálculo ali, ele bate nas paredes ou tenta passar pelo cístico.
A cólica biliar alivia em até 6 horas. Se passou de 6 horas e o paciente ainda está com dor, você começa a pensar em colecistite. Essa janela temporal é o divisor de águas entre as duas condições na emergência.
Caráter: apesar de chamada "cólica", a dor é frequentemente constante e intensa — não oscila como a cólica intestinal. O nome é um pouco enganoso. Náuseas e vômitos são comuns. Febre, geralmente não — isso também é ponto diferencial importante.
Diagnóstico — o USG resolve
O ultrassom é o padrão-ouro para colelitíase. Os achados clássicos são: imagens hiperecóicas intraluminais, sombra acústica posterior e mobilidade com a mudança de decúbito. Esse último achado é fundamental: o cálculo se desloca com o reposicionamento do paciente — o que diferencia colelitíase de pólipo ou lama biliar organizada, que permanecem fixos à parede.
Nenhum exame adicional — TC, colangiorressonância ou CPRE — é necessário para o diagnóstico isolado de colelitíase. O ultrassom é suficiente.
Quando operar o assintomático?
A resposta padrão é: em geral, não opera. Mas existem situações específicas com indicação cirúrgica mesmo sem sintomas:
Cálculo > 2,5–3 cm
Risco aumentado de neoplasia de vesícula biliar.
Pólipos vesiculares de alto risco
Surgiu após os 60 anos, associado a cálculos, ou crescendo progressivamente.
Vesícula em porcelana
Calcificação da parede — associada a risco de malignização.
Anemias hemolíticas
Formam cálculos de bilirrubinato de cálcio com frequência alta e complicam mais precocemente.
Transplantados e pós-bariátrica (by-pass)
Transplantados: qualquer infecção biliar vira caos com imunossupressão. Bariátrica: rápida perda de peso favorece cálculos e CPRE futura fica tecnicamente impossível pela anatomia alterada.
Colecistite Aguda — quando o cálculo impacta e inflama
Semiologia, exame físico, Tokyo Guideline 2018 e complicações
A colecistite aguda resulta da impactação de um cálculo no infundíbulo da vesícula biliar ou no ducto cístico, com consequente obstrução ao fluxo biliar, distensão vesicular e progressão para processo inflamatório — e frequentemente infeccioso — da parede. A estase biliar favorece proliferação bacteriana, e o quadro pode evoluir para empiema ou perfuração.
Semiologia — o que você vai encontrar
Essa é a parte que mais gosto de detalhar porque é onde o exame físico realmente importa.
Dor: igual à cólica biliar em localização — hipocôndrio direito — mas com diferença crucial: dura mais de 6 horas e geralmente é mais intensa. O paciente não fica quieto.
Febre: presente. Diferente da cólica biliar simples, na colecistite tem componente inflamatório e eventualmente infeccioso. Febre alta com calafrio deve te alertar para colangite associada ou complicação.
Sinal de Murphy: o sinal mais específico de colecistite ao exame físico. Posiciona-se a mão espalmada no ponto de Murphy — interseção do rebordo costal direito com a linha hemiclavicular — e solicita-se inspiração profunda. A interrupção súbita da inspiração pela dor (sinal de Murphy positivo) ocorre quando a vesícula inflamada desce em direção ao diafragma e encontra a resistência dos dedos do examinador. Tem boa especificidade para colecistite aguda.
O Murphy ultrassonográfico — dor à compressão direta com o transdutor sobre a vesícula — tem sensibilidade e especificidade ainda maiores que o clínico. Sempre pergunte ao radiologista se está presente no laudo.
Defesa e rebote: se presentes, pensar imediatamente em complicação — perfuração, por exemplo. Não relaxa.
Diagnóstico
O USG é o primeiro exame — mas o que você busca é diferente da colelitíase simples: cálculo impactado (não móvel), espessamento de parede maior que 3 mm, edema perivesicular e Murphy ultrassonográfico.
Se o USG não fecha ou você quer confirmação funcional, entra a cintilografia biliar (HIDA scan) — padrão-ouro. Ela mostra ausência de captação na vesícula porque o cálculo impactado impede que a bile radioativa entre. Vesícula que não aparece = obstruída.
Tokyo Guideline 2018 — classificando a gravidade
A TG-18 padronizou diagnóstico e gravidade. Para suspeitar, você precisa de A + B. Para confirmar, A + B + C:
A — Inflamação local: Murphy positivo, dor/sensibilidade em HCD, massa palpável
B — Inflamação sistêmica: febre, leucocitose, PCR elevada
C — Imagem: achados ultrassonográficos de colecistite
Complicações — o que pode dar muito errado
Perfuração Livre → Peritonite Biliar
A bile cai na cavidade. Febre alta, piora do leucograma, dor difusa, irritação peritoneal. Cirurgia de urgência — não tem para onde correr.
Perfuração Bloqueada → Abscesso Perivesicular
O omento "tampa" o buraco. Quadro mais insidioso. Avalia-se colecistostomia percutânea para drenagem.
Fístula Bilio-Entérica → Íleo Biliar
A vesícula perfura para o duodeno. Se o cálculo for grande, migra e causa obstrução de delgado. Clássico de prova: Tríade de Rigler — obstrução de delgado + cálculo ectópico em topografia incomum + pneumobilia (ar na via biliar).
Colecistite Enfisematosa
Infecção por anaeróbios, classicamente Clostridium, com gás na parede da vesícula. Perfil típico: idoso, diabético, homem. Exame de escolha: TC. Mortalidade muito maior que a colecistite comum — só 1% dos casos, mas não deixa passar.
Colangite Aguda — colestase obstrutiva e infecção biliar
Fisiopatologia, Tríade de Charcot, Pêntade de Reynolds e TG-18
A colangite aguda é uma entidade fisiopatologicamente distinta da colecistite. O sítio primário é o colédoco — e não a vesícula biliar. A fisiopatologia exige a combinação de dois elementos: obstrução biliar + colonização bacteriana. Na ausência de qualquer um dos dois, não há colangite.
A causa obstrutiva mais frequente é a coledocolitíase (60% dos casos). As demais etiologias incluem neoplasia de cabeça pancreática, colangiocarcinoma, estenoses benignas pós-cirúrgicas e compressão extrínseca por linfonodos.
As apresentações clínicas
Tríade de Charcot — forma não grave
1. Febre com calafrio — mais alta e exuberante que na colecistite. Bacteremia é comum.
2. Icterícia — obstrução do colédoco bloqueia bilirrubina. Urina escura (colúria), fezes esbranquiçadas (acolia fecal).
3. Dor em hipocôndrio direito — mesmo padrão de dor biliar.
Pêntade de Reynolds — forma grave/supurativa
Tríade de Charcot + dois sinais de sepse biliar instalada:
4. Hipotensão
5. Depressão do SNC — confusão mental, torpor, coma
Quando você vê a Pêntade de Reynolds, está diante de uma emergência. Esse paciente tem sepse biliar e precisa de drenagem imediata das vias biliares — não amanhã, não depois do exame, agora.
Como diferenciar colangite de colecistite na beira do leito?
A icterícia é o sinal que mais diferencia os dois na prática clínica. Na colecistite, o processo inflamatório restringe-se à vesícula biliar — o colédoco permanece patente e o fluxo biliar não é interrompido, de modo que icterícia significativa é incomum. Na colangite, a obstrução é do próprio colédoco, gerando colestase obstrutiva com hiperbilirrubinemia, colúria e acolia fecal.
| Característica | Colecistite | Colangite |
|---|---|---|
| Febre | Moderada | Alta, com calafrio |
| Icterícia | Geralmente ausente | Presente (obstrução do colédoco) |
| Sinal de Murphy | Positivo | Variável |
| Bilirrubinas | Normais ou levemente ↑ | Muito elevadas |
| FA / GGT | Pouco alteradas | Muito elevadas |
| USG | Vesícula espessa, cálculo impactado | Dilatação das vias biliares |
| Risco imediato | Variável (TG-18) | Alto — bacteremia frequente |
TG-18 para colangite — classificação
Como pensar rápido na emergência
Quando chegar um paciente com dor em hipocôndrio direito, a sequência de raciocínio mental é essa:
⚡ Fluxo de triagem clínica
A patologia biliar gera uma quantidade desproporcional de demanda cirúrgica. Domina a semiologia, classifica pela TG-18 e não posterga a intervenção quando ela está indicada.
Referências
- Yokoe M et al. Tokyo Guidelines 2018: diagnostic criteria and severity grading of acute cholecystitis. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2018.
- Kiriyama S et al. Tokyo Guidelines 2018: diagnostic criteria and severity grading of acute cholangitis. J Hepatobiliary Pancreat Sci. 2018.
- Townsend CM Jr et al. Sabiston Textbook of Surgery, 21st ed. Elsevier, 2022.
- Brunicardi FC et al. Schwartz's Principles of Surgery, 11th ed. McGraw-Hill, 2019.