Endocrinologia
Leitura: ~10 min

Pé Diabético:
você sabe reconhecer?

Neuropatia, doença arterial periférica, úlcera e Pé de Charcot — da fisiopatologia à estratificação de risco e manejo da infecção.

Por CT dos Acadêmicos · Endocrinologia

O pé diabético é definido como infecção, ulceração e/ou destruição de tecidos moles associadas a alterações neurológicas e variados graus de doença arterial periférica nos membros inferiores. É uma das complicações com maior impacto funcional da doença — e, na maior parte dos casos, prevenível com rastreio sistemático.

A patogênese é multifatorial, mas dois eixos dominam: a neuropatia diabética e a doença arterial periférica. Compreender como cada mecanismo contribui para a úlcera é o primeiro passo para reconhecer precocemente o paciente em risco.

FISIOPATOLOGIA

Neuropatia e isquemia — os dois pilares

Como a lesão neural e a doença vascular convergem para a úlcera

Fisiopatologia do pé diabético
Fisiopatologia: a neuropatia sensitivo-motora e autonômica, somada à doença arterial periférica, cria o substrato para ulceração. Calçados inadequados e edema crônico de membros inferiores são os principais fatores precipitantes. Ilustração: CT dos Acadêmicos

Polineuropatia Simétrica Distal — a forma mais comum

Compromete progressivamente diferentes tipos de fibras nervosas, com repercussões clínicas distintas em cada subtipo:

Fibras finas (Aδ e C)
Sensibilidade térmica e dolorosa
O paciente não percebe queimaduras, traumas por calçados ou calos dolorosos. A ausência de nocicepção elimina o principal sinal de alerta tecidual.
Fibras grossas (Aβ)
Propriocepção e sensib. vibratória
Hiporreflexia ou arreflexia aquiliana. Compromete a distribuição de carga plantar e favorece o desenvolvimento de deformidades estruturais progressivas.

A disfunção autonômica completa o quadro: a anidrose resulta em pele ressecada e fissurada, criando portas de entrada para colonização bacteriana.

📌 Conceito Central

A úlcera do pé diabético forma-se principalmente pelo uso de calçados inadequados associado ao edema crônico de membros inferiores, sobre uma região com insensibilidade protetora perdida. O paciente continua deambulando sem perceber o trauma repetitivo — e a lesão progride silenciosamente.

Doença Arterial Periférica — agravante e deflagradora

A aterosclerose acelerada pelo diabetes gera hipóxia tecidual e retardo cicatricial. A doença arterial periférica pode tanto deflagrar uma ulceração isquêmica primária quanto complicar uma úlcera neuropática preexistente, convertendo-a em lesão mista de pior prognóstico.

ENTIDADE ESPECIAL

Pé de Charcot — quando o osso colapsa

Neuro-osteoartropatia diabética: diagnóstico que não pode ser perdido

A sequência fisiopatológica combina três elementos: insensibilidade + área de pressão anormal + processo inflamatório local. O resultado é uma cascata de osteólise, fraturas e deformidades progressivas que podem culminar em colapso arquitetural irreversível do pé.

⚠ Não perca esse diagnóstico

O Pé de Charcot em fase aguda apresenta edema, hiperemia e hipertermia unilateral do pé em paciente com neuropatia diabética — frequentemente sem dor. O erro clássico é confundir com celulite ou trombose venosa profunda e postergar o diagnóstico, permitindo progressão para colapso irreversível.

AVALIAÇÃO CLÍNICA

Como examinar — do rastreio ao risco vascular

Todo diabético deve ser avaliado anualmente; com alteração sensitiva, em toda consulta

Avaliação Neurológica

O instrumento central é o monofilamento de Semmes-Weinstein de 10g, que avalia o limiar de sensibilidade protetora plantar. Deve ser complementado por pelo menos um dos seguintes:

🔔
Diapasão 128 Hz

Avalia sensibilidade vibratória (fibras grossas). Aplica-se sobre a cabeça do primeiro metatarso e a face dorsal do hálux. Redução da percepção vibratória indica comprometimento de fibras Aβ.

🦵
Reflexo Aquileu

A hiporreflexia ou arreflexia aquiliana é marcador precoce de polineuropatia simétrica distal. Deve ser pesquisada rotineiramente com o martelo de reflexos.

📍
Teste com pino (neurotip) — pinprick sensation

Avalia sensibilidade dolorosa superficial (fibras finas). Complementa a avaliação quando os demais testes são inconclusivos.

Índice Tornozelo-Braquial

Após a palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior, o próximo passo é o índice tornozelo-braquial, obtido com Doppler pela razão entre a maior pressão sistólica do tornozelo e a maior pressão sistólica das artérias braquiais.

🎯 Indicação

Solicitar em pacientes com sinais ou sintomas de vasculopatia periférica e em todos os pacientes diabéticos acima de 50 anos, independentemente de sintomas.

ITB > 0,9 Normal. Fluxo arterial periférico preservado.
ITB < 0,9 Alterado. Doença arterial periférica presente. Encaminhar ao cirurgião vascular.
ITB < 0,4 Isquemia crítica de repouso — risco iminente de necrose tecidual. Intervenção vascular de urgência.
ESTRATIFICAÇÃO

Classificação de risco — quem acompanhar e como

Determina frequência de seguimento e encaminhamentos necessários

Estratificação de risco do pé diabético em 4 categorias
Estratificação de risco: baseada na presença de perda sensitiva periférica, doença arterial periférica e histórico de úlcera ou amputação. Define frequência de seguimento e necessidade de encaminhamento especializado. Ilustração: CT dos Acadêmicos
Categoria Características Seguimento Conduta
0 Sem perda sensitiva periférica, sem doença arterial periférica Anual Orientações de autocuidado
1 Perda sensitiva periférica ± deformidade estrutural 3–6 meses Calçado especial e palmilha de descarga de pressão
2 Doença arterial periférica ± perda sensitiva periférica 3–6 meses Encaminhar ao cirurgião vascular
3 Histórico de úlcera ou amputação prévia Mensal Equipe multidisciplinar
MANEJO

Da prevenção ao tratamento da úlcera infectada

Medidas gerais, curativos e estratificação da infecção

Medidas Gerais

🩸
Controle glicêmico e pressórico

Base de toda prevenção. A hiperglicemia sustentada acelera a progressão da neuropatia e da aterosclerose periférica.

🚭
Cessação do tabagismo

Potencializa a doença arterial periférica e compromete a cicatrização tecidual. Deve ser abordado em toda consulta.

👟
Orientações de autocuidado

Não deambular descalço. Autoexame diário dos pés. Calçados adequados com palmilhas de descarga de pressão. Hidratação cutânea para prevenção de fissuras.

Manejo da Úlcera e Classificação da Infecção

Na presença de úlcera, o curativo de escolha é em compressa úmida. Antissépticos tópicos devem ser evitados — são citotóxicos para o tecido de granulação e retardam a cicatrização.

Infecção Leve Sem sinais sistêmicos e eritema perilesional < 2 cm. Tratamento: antibioticoterapia oral com cobertura para cocos Gram-positivos (flora cutânea).
Infecção Moderada / Grave Eritema ≥ 2 cm ou sinais sistêmicos (febre, leucocitose, taquicardia). Tratamento: antibioticoterapia intravenosa + desbridamento cirúrgico + pesquisa de osteomielite (biópsia óssea, ressonância magnética, cintilografia ou radiografia).
🦴 Osteomielite — não subestime

Na infecção moderada a grave, a pesquisa de osteomielite é mandatória. O probe-to-bone test — introdução de estilete metálico na úlcera até tocar estrutura óssea — tem alta especificidade. A ressonância magnética é o exame de imagem com maior acurácia diagnóstica.


RESUMO CLÍNICO

Fluxo de avaliação na consulta

⚡ Abordagem sistemática do pé diabético

Há perda sensitiva?
SIM → avaliar em toda consulta · estratificar como categoria ≥ 1
NÃO → seguimento anual · orientações de autocuidado (categoria 0)
Há doença arterial periférica?
SIM → categoria 2 · encaminhar ao cirurgião vascular · solicitar índice tornozelo-braquial
NÃO → manter rastreio conforme categoria
Há úlcera presente?
SIM → classificar infecção (eritema < 2 cm vs ≥ 2 cm / sinais sistêmicos)
NÃO → prevenção ativa: calçado, palmilha, autoexame diário
Infecção grave ou eritema ≥ 2 cm?
SIM → antibioticoterapia intravenosa + desbridamento + pesquisar osteomielite
NÃO → antibioticoterapia oral ambulatorial · reavaliação em 48–72h

O pé diabético não começa com a úlcera — começa com a insensibilidade que ninguém percebeu, o calo que ninguém tratou e o calçado que ninguém orientou a trocar.

Referências

  1. Armstrong DG, Boulton AJM, Bus SA. Diabetic Foot Ulcers and Their Recurrence. N Engl J Med. 2017;376(24):2367-2375.
  2. Schaper NC et al. Practical Guidelines on the Prevention and Management of Diabetic Foot Disease (IWGDF 2019 update). Diabetes Metab Res Rev. 2020.
  3. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2022. Clannad Editora Científica.
  4. Frykberg RG et al. Diabetic Foot Disorders: A Clinical Practice Guideline. J Foot Ankle Surg. 2006;45(5 Suppl):S1-66.
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